Por Leandro Ramos
Sócio-fundador do Indike
Sócio-fundador do Indike
No mundo da internet uma pergunta recorrente é se existe uma bolha entre as empresas pontocom. O recente IPO do Facebook, que elevou o valor de mercado da rede social para mais de US$100 bilhões, lançou mais incertezas para aqueles que acreditam que temos uma especulação financeira semelhante ao início da década passada.
Afinal, estaríamos vivendo uma nova bolha na internet?
Uma bolha especulativa se forma quando existe um excesso de expectativa otimista em um dado segmento de negócio. Temos a bolha quando o mercado se sustenta apenas com a entrada de novos participantes. Trata-se de uma situação em que o mercado não apresenta negócios consistentes e mais gente precisa entrar nele para empurrar o problema para frente, como se fosse uma pirâmide. Transpondo essa discussão para o Brasil, será que existe uma bolha na internet brasileira?
Longe de profetizar uma crise, a discussão sobre bolha nos negócios pontocom brasileiros merece cuidado. Existem alguns elementos que denotam pouca consistência do mercado de internet brasileira, que podem provocar uma bolha tupiniquim. Vejamos alguns pontos de atenção:
Espelho norte-americano
Quem vive no ambiente de startups brasileiras e já foi apresentar seu projeto para um investidor nacional ou estrangeiro certamente se deparou com a seguinte pergunta: “qual o espelho do seu negócio nos Estados Unidos?”
Quem vive no ambiente de startups brasileiras e já foi apresentar seu projeto para um investidor nacional ou estrangeiro certamente se deparou com a seguinte pergunta: “qual o espelho do seu negócio nos Estados Unidos?”
Os investidores exigem por aqui que seu negócio seja uma cópia de algum negócio bem sucedido nos Estados Unidos. Aceitam no máximo uma leve adaptação local e nada de investirem em um modelo de negócio inovador.
Por um lado faz muito sentido apostar em um empreendimento que já possui um similar bem sucedido no maior mercado de internet do mundo. Porém, nem sempre o que deu certo lá fora vai funcionar aqui dentro. Existem algumas startups brasileiras que receberam aportes milionários em 2011 tendo como base espelhos norte-americanos e agora patinam.
Vale ainda lembrar a turma que busca o tal do espelho estrangeiro o fato de que Brasil é líder mundial em algumas tecnologias, justamente por ter olhado para dentro e não ter tentado copiar modelos estrangeiros. A tecnologia bancária brasileira é uma das mais modernas do mundo, justamente porque investimos esforços para lidar com anos de hiperinflação e um cenário de fraude bastante criativo. Se tivéssemos tentado copiar algum espelho norte americano, certamente estaríamos atrasados alguns anos. Outra tecnologia que o Brasil desponta mundialmente sem copiar ninguém é o sistema de votação eletrônica, que hoje o país exporta inclusive para os Estados Unidos. Resumindo: será que vamos construir negócios consistentes se continuarmos procurando incessantemente um modelo de negócio bem sucedido lá fora?
Negócios deficitários
O Brasil felizmente entrou na rota dos grandes investidores internacionais. Se por um lado isso é bom, por outro, existe um fenômeno que pode gerar uma bolha por aqui.
O Brasil felizmente entrou na rota dos grandes investidores internacionais. Se por um lado isso é bom, por outro, existe um fenômeno que pode gerar uma bolha por aqui.
Na onda de copiar startups estrangeiras, muitos empreendedores simplesmente replicam modelos que deram certo lá fora. Alguns negócios, com um discurso bem estruturado, recebem até aporte financeiro.
Ocorre que muito destes empresários trabalham apenas para atrair capital para o empreendimento e esquecem-se do básico: uma empresa existe para faturar e mais, dar lucro. Existe muita startup brasileira que já recebeu a primeira rodada de investimento, o chamado Series A round, e se preocupa apenas com a próxima bolada do Series B, embora não tenha fechado nenhum balanço no azul. Será que essa situação se sustenta ou vai ter que entrar outro investidor para alimentar esta pirâmide?
Eventos para startups
Com o recente boom de startups brasileiras, os eventos para estas empresas, que antes eram raros, agora crescem em proporção geométrica.
Com o recente boom de startups brasileiras, os eventos para estas empresas, que antes eram raros, agora crescem em proporção geométrica.
Para o empreendedor, nada melhor do que eventos para trocar experiências de mercado, colher feedbacks e falar com investidores. Porém, o que vemos é que os eventos para startups no Brasil estão se tornando um grande negócio, muito mais preocupados em aumentar o faturamento de quem organiza, do que ajudar os empreendedores.
Os eventos se tornaram palco de exibicionismo de poucos empreendedores, alguns consultores e investidores. O que alimenta a maioria destes eventos são as rasas discussões de como atrair um investidor para a empresa e captar o primeiro milhão, ou ainda como montar adequadamente um Modelo Canvas ou seguir o Lean Startup. Não vemos discussões um pouco mais aprofundadas, como, por exemplo, sobre o custo de aquisição de clientes ou troca de experiências de como fazer uma campanha de email marketing eficiente. Até quando este modelo se sustenta?
A verdade é que em todo mercado que apresenta crescimento acelerado, sempre vai existir a questão de quando a bonança vai acabar ou diminuir seu ímpeto. Afinal, o capitalismo já se mostrou ao longo dos últimos séculos que funciona por ciclos. Porém, é possível evitar uma bolha na internet brasileira. Para isso, é preciso ter claro que qualquer inconsistência jogada para frente em algum momento vai cobrar uma solução. Em uma visão mais capitalista: alguém tem que pagar a conta.
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